Em comemoração ao novo layout do site, reedito aqui o primeiro texto, que deu origem à Mulher de Ciclos, em 17 de Dezembro de 2008. Divirtam-se!
Primeira cicloviagem da Mulher de Ciclos: aventura inesquecível, e já já você vi entender por quê.
As subidas em especial lhe dão PÂNICO. Não sabemos ainda o motivo, talvez Freud explique. Mas o fato é que Mulher de Ciclos ficou muito nervosa a semana inteira só de pensar nesta viagem, que seria um desafio especial. Os briochinhos machucados (os dois joelhos doendo, explico… mas o esquerdo estava de matar…) a deixou ainda mais insegura.
O que ela fez, não recomendo a ninguém em casa: “drogas” pesadas ela tomou, a semana inteira, só pra poder ir pedalar (ihhh, nem adianta falar com ela, é taurina e teimosa igual à peste).
Para piorar, na véspera à noite ela descobriu que todos iam de pneu biscoito (e só ela de slick), que seu pneu tava arriado e que havia perdido seu ciclo.
Conclusão: no sábado Mulher de Ciclos estava um pilha, à beira de um ataque de nervos, achando que não a chegar nem a Petrópolis…
Encontrar a galera foi um alívio. As palhaçadas do trem, com direito ao “coraçãozinho” de Gafanhoto, a pole dance do Letrado e as fotos tresloucadas do Bob Pai foram deixando-a menos nervosa.
O grupo teve que amarrar as bikes no trem, pois a cada freada elas iam longe! A Central do Brasil foi uma aventura: os intrépidos ciclistas eram olhados como ETs querendo fazer contato, e assim foi durante todo o fim-de-semana, por onde passavam.
Chegando a Saracuruna, dúvidas quanto ao percurso. Foram “saudados” por uma senhorinha simples e extremamente simpática, que falou que “aquela criança” (é, tava falando da Mulher de Ciclos) não ia conseguir chegar a Friburgo não…
Depois, em Raiz da Serra, mais um “vidente” no boteco em que pararam apressou-se a prever que “aquela senhora” (apontando pra Mapa-Mundi) não ia agüentar subir não… Há, mal sabia ele.
A subida começou, paralelepípedos intermináveis. Com parada pra banana em frente a um terreiro. Vencida esta parte do trajeto, já veio um certo alívio: passada a temida Serra Velha de Petrópolis, que Mulher de Ciclos tanto demonizava e depois viu que não era nada demais…
Bem, parada pra almoço (mais um lanche do que almoço) em Petrópolis e foram pra Itaipava. Lá, Dr. Boticão se despediu. Pena. Todo o grupo ficou preocupado com sua volta, e depois souberam que ele teve alguns percalços no caminho.
Mulher de Ciclos e seus companheiros pararam no Shopping Vilarejo para comprar água, ir ao banheiro e ver loja de bike. A essa altura ela já mal conseguia andar… Pra pedalar não tanto, mas pra andar… praticamente se arrastava, o joelho doía MUUUITO.
E aí veio a Estrada das Hortênsias. O pessoal começou a imprimir um ritmo que ela achou que não ia conseguir acompanhar, e o joelho doíiiiia, doía e doía. A pequenina ciclista nem sabe como coube tanto nervosismo dentro de si.
Só pensava: “já era, vou ficar por aqui, tudo perdido”. Roger ia no final fazendo a escolta e dando uns toques… orientando com as marchas e o giro. Mal sabia ele, tadinho, que com isso a ciclista-a-beira-de-um-ataque-de-nervos ia ficando mais pilhada ainda!
Era medo de ficar pra trás, de não conseguir acompanhar o grupo. E depois, ela só se lembra de subir subir subir. Só subidas. Nunca que o raio do topo chegava. E Mulher de Ciclos pensando: “vão ser 30km de subidas, eu mal agüento subir a Vista Chinesa, já era”.
Bem, fica aí a lição: psicológico é tudo. Quando sua cabeça vai mal, não consegue nem pedalar direito. Apesar de Mulher de Ciclos não estar 100% fisicamente, o que mais pesou foi sua cuca.
Foi anoitecendo. Foi esfriando. Estavam encharcados. E nada de parar de subir. Nada de chegar o topo. No meio daquele breu, Mulher de Ciclos de repente se sentiu sufocando: um bolo na garganta não a deixava respirar… Assim, iria ficar entalada e sufocar! O ar faltava, não descia pelos pulmões…
Até que aproveitou um restinho de fôlego para avisar a Gafanhoto: “preciso parar”. Não havia a mínima luz, ninguém conseguia enxergar nada à frente, não passava um carro pra iluminar o caminho. Só mato, névoa, frio e chuva.
O grupo parou, e Mulher de Ciclos ficando roxa de falta de ar. E cansada, muito cansada. Pela cabeça, só passava: “não vou conseguir, não agüento mais subir nada”.
Ela não sabia o quanto faltava, ninguém sabia, não dava pra enxergar um palmo à frente. Pronto, desesperou-se por completo: entrou em prantos, soluçava, lágrimas aos borbotões. Botou pra fora todo o choro que estava engasgado desde manhã cedo. E aí Mulher de Ciclos voltou a respirar…
O grupo ficou à sua volta. Não precisavam falar muito, nem falaram… Bastava estarem ali com ela. Às vezes o silêncio diz mais que mil palavras, certo?
O frio foi batendo, a fome estava negra e todos começaram a buscar o que tinham pra comer. Abriram biscoito, um pacote de tacos borrachudos que devoraram com sal que a Mapa-Mundi providencialmente levara. E se animaram a continuar.
Parecia bruxaria: recomeçaram a pedalar… e a subida ACABOU, chegaram ao topo da serra. Começou a descida, mal acreditavam. Aí foi a vez de Rosquinha se emocionar e deixar as lágrimas rolarem.
E aqui, só as palavras de Gafanhoto para ilustrar aqueles momentos:
“No topo da montanha e naquela escuridão infinita… Jamais me esquecerei. Foi ali, através de tanta emoção, que a pequena Thais, mesmo sem saber, fez brotar lá no fundo dos oito corações intrépidos um raro sentimento: a união.”
“E com essas vivências eu felizmente percebo, a cada dia, que demonizar o nosso próprio medo é reprimir a coragem. Portanto, não tenhamos receio de sentir nada, ou tudo. Mesmo aquelas coisas que por conta da bagagem moral, insistimos em rotular como fraquezas.”
“E finalmente, sob a lua mágica daquela noite, quando por um breve instante as lágrimas de pura felicidade da Renata tocaram lá no fundo do meu peito, percebi através daquele intrépido momento, doce e sensível, o quanto amamos o ciclismo e somos especiais uns para os outros…”
A descida foi cruel também, mas um alívio: muito frio, não sentíamos mais as mãos, “congeladas” nos freios, a pista molhada e perigosa, o breu. E pra Mulher de Ciclos a dor, claro. As descidas são cruéis para os joelhos. Mas era hora de superar a dor.
Na verdade, todo o fim-de-semana foi um exercício de superação, sem dúvida. De conhecer e reconhecer meus próprios limites…
A cidade não chegava: parecia que quanto mais descíamos, mais as luzes de Teresópolis se afastavam do grupo. Mais uma hora e começaram os sinais de “civilização”: uma luzinha ali, um hotelzinho acolá.
Todos seguiram direto para uma padaria, beber algo quente e ingerir algo “comível”. Lá, foram recebidos por uma meninota cativante, que ficou fascinada com as bikes e com a bagunça. Assim como um casal simpaticíssimo, que ficou admiradíssimo com a aventura dos intrépidos ciclistas, e fez questão de dar-lhes um beijo e abraço, mesmo estando todos molhados e fedidos…
Depois, se dividiram: metade pro Hotel Teresópolis, metade pra casa do Felipe. Pra mim, ali, estava tudo acabado. Não teria condições de continuar, só me restava acordar e pegar um ônibus pro Rio. Mulher de Ciclos dormiu com fome, por que o cansaço era mais forte.
A noite foi difícil: mal conseguia se mexer, foi uma gemeção só, muita dor e fisgadas que a acordavam. Pesadelos nos quais se via voltando sozinha para o Rio e se despedindo do grupo, na rodoviária, vendo-os seguir viagem. A manhã veio com juntas enrijecidas, cansaço, fome, dor e frustração. Preparou-se psicologicamente pra voltar.
Mas ao ver os companheiros se arrumando pra partir, tela tomou uma difícil decisão, pois não queria penalizar o grupo nem comprometer a viagem dos demais: ia seguir viagem.
Colocou novamente seus tensores, apertou bem a joelheira, tomou alguns analgésicos, disfarçou a dificuldade pra andar e partiu. Estava disposta a suportar a dor, já que avisaram-na que o trajeto até Friburgo seria bem menos puxado que o da véspera. Só não chegaria se a perna caísse.
Engraçado que com a certeza de que iria CHEGAR, tudo foi tão mais fácil! 
O sangue foi esquentando e a dor diminuindo. O trajeto era alternado, entre subidas e descidas. E nas descidas Mulher de Ciclos se garante: lenta pra subir, mas desce rápido e recupera o ritmo. Além disso, estava mais segura: havia completado coisa muito pior na véspera, subidinhas com descidas então, seria água com açúcar.
E foi mesmo! Uma delícia o circuito Terê-Friburgo: paisagens arrebatadoras, plantações de ervas, uma coisa de louco! Cansaço? Nem dava pra sentir, o visual extasiava qualquer cicloturista. A chuva deu uma trégua durante toda a manhã, pra voltar à tarde.
Quando Mulher de Ciclos viu a placa “Friburgo 3 km”, as lágrimas vieram. Afinal, dever cumprido. Pra ela, uma grande vitória pessoal, a primeira de muitas, em um momento de sua vida em que precisa reescrever sua própria história.







Ufa, rs! Vivi na imaginação, longe da agonia e da dor, mas vivi. Parabéns.
Mesmo lendo pela 6ª vez eu ainda me emociono…Lembrar e viver novamente!
Bjos ciclisticos
Sua narração me cativou, emocionou, me estremeceu, por isso adoro você, querida Thais…este grupo foi super animador e o meu prazer ao ver aquelas crianças felizes, acho que fiquei mais feliz do que elas…Bjs.
ALÉM DE SER MULHER DE CICLOS ,VOCÊ TAMBÉM É MULHER DE GARRA E DETERMINAÇÃO.
PARABÉNS