Igual pedalar, navegar é preciso. De quando em vez, precisamos mudar o rumo de nossa própria história, de nossa própria embarcação. Navegar por outras águas, enfrentar mares bravios e ressacas, nem que elas estejam pertinho: aqui mesmo, dentro do peito.
Como já dizia Gafanhoto, precisamos nos descontruir a cada dia. Ou como já andou escrevendo Mulher de Ciclos por aqui, não precisamos escolher uma cor só… Podemos pintar com todas uma aquarela!
Assim, Mulher de Ciclos partiu para começar mais um ciclo: o das águas. Uma necessidade urgente a impelia àquele azul sem fim, às águas, ao oceano. Precisava recarregar suas baterias, e apesar de nunca ter experimentado isso na vida, já sabia o que a esperava…
Partiram às 21h, em meio ao breu, rumo à Ilha Grande, na Costa Verde. O negrume do mar à noite não a assustou. Engraçado como aquilo lhe era tão familiar! Ao longe, as luzes delineavam a costa, e era fácil reconhecer a Urca, a Enseada de Botafogo, Copacabana, Ipanema e Leblon.
Tomou a cana do leme e manteve o curso do barco, enquanto seu companheiro iria tirar um cochilo. A idéia era os dois se revezarem no descanso, já que a viagem era longa: seriam em torno de 15 horas navegando.
Entre bocejos, Molekão avisa “passe por fora das Tijucas”, e volta a ressonar. Mas o que era por fora, afinal? Pra ela, era tudo dentro d’água mesmo… Passando a orla da Barra da Tijuca e Recreio, o mar começa a bater. A escuridão do mar não assusta, mas aquelas ondas sim.
E viu Guaratiba ir ficando pra trás, ao longe, ao fundo, cada vez mais distante. Tão distante, tão distante, que quase já não era mais possível ver as luzinhas da costa. Ah, isso sim era assustador, já que o consolo de uma marinheira de 1a viagem era saber que a navegação seria por cabotagem, ou seja, sempre beirando a costa.
Não resistiu e foi acordar Molekão. Agora era sua vez de descansar as pestanas. Viria então a parte da viagem que demorava muito a passar. Ficou tensa. A navegação era por bússola, estava escuro e na região da Restinga da Marambaia não havia luzes que orientassem a direção a tomar.
A Restinga era interminável! As únicas luzes eram de outras embarcações, ao longe, e de resto, o breu. Entre um cochilo e outro, os dois se revezavam para ficar alertas. E numa dessas, após colocar o piloto automático, eles veem que a geringonça pirou e deu uma volta de 180°. Ou seja, eles estavam retornando para casa!
Rumo acertado, eis que Mulher de Ciclos fica admirando o nascer do sol, que estava apenas começando. Ali sozinha, enquanto seu companheiro tirava mais um soninho, ela percebia que mais algumas barreiras estavam sendo vencidas: o medo do escuro, o temor do mar, a resistência natural do ser humano às coisas novas.
Passeando entre proas e popas, indo de bombordo a estibordo, em meio a manicacas, velas e genoas, deixou seu “pensamento tão livre quanto o céu, imagina um barco de papel, indo embora para não mais voltar, tendo como guia Iemanjá”…
E ali, naquele momento, teve certeza que poderia sim ser capitã da sua embarcação. Deixá-la percorrer esses e outros mares, esse e outros planos. Se tivesse que mergulhar fundo, que o fizesse, mas que mantivesse firme suas raízes, para sempre que quisesse, retornar a casa.
Com o tempo, não se deixaria mais ser levada ao sabor das marés, mas usaria a força das ondas para levá-la ao porto cobiçado. Em sua companhia, levaria todos os que quisessem viajar com ela: os que lhe apontaria o rumo a ser tomado e os que precisassem de direcionamento.
Assim seguiu, com a cabeça cheia de devaneios, até a grande ilha, cantarolando Maria Gadu: “Ser capitã desse mundo, poder rodar sem fronteiras, viver um ano em segundos, não achar sonhos besteira”…
