Mulher de Ciclos
Pedale que o mundo gira
Infinitas estradas
Categoria: Historietas

Mulher de Ciclos

Sentiu algo quente escorrendo de seu nariz. Era sangue. “Você está bem?”, ouviu uma voz perguntar. Abriu os olhos e viu-se rodeada por dois pares de olhos curiosos. “Estou ótima”, respondeu esbaforida, enquanto levantava do chão aos tropeções.

Tudo em volta girava, um grande céu azul com fofas nuvens parecia que ia engolí-la. Ao fundo, reconheceu o prédio no qual seu pai trabalhava. O sol já subia e ela ainda na Primeiro de Março, que aos domingos ficava irreconhecível. Faltava a cidade inteira para cruzar, e já começava o dia com uma vaca espetacular, torcendo para não ter quebrado o nariz.

Começar de verdade mesmo foi um pouco antes. Acordou, levantou e voltou a dormir. Itacoatiara ficaria pra outro dia. Deu preguiça de sair tão cedo e encontrar os amigos. Ainda mais num dia daqueles, em que se via às voltas com seu ciclo.

O despertador não despertou ninguém e ela acordou tarde. Queria ir a um lugar pertinho, sem muito esforço. Foi para a cozinha olhar o mapa. Preso em uma das paredes, um grande mapa do estado do Rio, já meio manchado, parecia gritar pra ela: “Paracambi é logo ali, Paracambi é logo ali”. Assim saiu de Copa naquela manhã preguiçosa, meio com rumo, nada com pressa, querendo rodar pouco e sem muito esforço.

“Paracambi é logo ali”, pensou. Como não iria longe, não levou câmera nem nada. Nem pode fotografar o bueiro que a derrubou, nem o estrago no nariz. Cruzou a cidade e a Av. Brasil, domingo era bem mais rápido.

Chegando na Dutra, um pneu furado a atrasou um bocado, mas valeu a pena por que conheceu Marta, que vendia água de côco na beira da estrada. Marta estava de folga e contou que não passava mais apuros na rua: seu marido a havia ensinado a trocar pneus.

O sol estava de ferver motor. Logo depois do pedágio, um posto de gasolina. Duas senhoras puxam assunto: “Muito calor, né minha filha?”, e ela assente com a cabeça, tal qual cachorro depois do banho, molhando o banheiro inteiro. A dupla fica curiosa a respeito de sua mochila. “É oxigênio, que sai nessa mangueirinha?”. Foi preciso conter o riso pra responder que não: apenas água, e de beber.

A entrada para Paracambi era 1,5km à frente, informou um funcionário do posto. Veio a descida, com um lago à direita. A placa informava 12km para Paracambi. Quilometragem aceitável, já que Paracambi é logo ali.

A estradinha tinha um asfalto razoável, o visual era bonito, montanhas verdes, fazendas e cursos d’água. Seguia feliz e cantante, sem ninguém por perto em um raio de quilômetros. “Avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você…”. Seguia, agora já ansiosa para chegar: “Neném sem chupeta, Romeu sem Julieta, sou eu assim sem você, bike sem estrada, queijo sem goiabada, sou eu assim sem você…”.

Horto Florestal, Associação de Cavaleiros de Paracambi. Não havia muita coisa para conhecer, o jeito era seguir viagem. Ir e voltar pelo mesmo lugar é muito chato, então entrou em Seropédica pela BR-465, a antiga Rio-São Paulo. Seria bom rever os prédios históricos da UFRRJ e da EMBRAPA, que tanto marcaram uma época de sua vida.

Mas saindo de Seropédica, problemas com o ciclo. Não seu ciclo de mulher: agora era o ciclocomputador da bicicleta que parou de funcionar. Pegou a pequena ciclovia do lugar, mas um cavalo obstruía a passagem. Sorte sua que cavalos são vegetarianos: estava tostada de sol igual um frango de padaria, saíra para ir logo ali, nada de protetor solar. Voltou pra pista, com os quilômetros passando rápido, muito rápido, cada vez que se lembrava dos detalhes do caminho.

A luminosidade foi caindo e na altura de Vila Kennedy se viu em noite feita. Faltava um bocado de chão, e foi batendo aquele medinho que ela já conhece de outras paragens: ficar na estrada à noite, sozinha. “Vá na direção em que seu medo cresce”, lembrou-se de já ter ouvido, enquanto o medo só aumentava.

Passou por trechos de completo breu, iluminando o caminho apenas com a luz de seu farol, e se perguntando o que fazia ali. Enquanto esperava a resposta chegar, deu-se conta de que estava cansada. Quando está sozinha não pára para descansar. Esquece, distrai-se indo mais além. Bate uma preguiça de parar, já que pedalar é tão bom.

Até poderia ter pego o metrô em Coelho Neto, já que bikes são bem vindas aos domingos. Mas assim como Paracambi, sua casa era tão logo ali… Economizar quilômetros agora, já com 160km pedalados, não fazia sentido algum.

Perto de Copa a pergunta de sempre volta a martelar em sua mente. Por que estava ali, por que fazia aquilo, só ela e sua bicicleta? “Viajamos porque dentro de nós há infinitas estradas”, ouviu uma voz dizer. Sentiu suas pernas ficarem bambas, o corpo mole, um sopapo no estômago. Percebeu que quanto mais pedalava, mais seu mundo girava. Quando deu por si, já estava no elevador.

Entrou em casa apressada e correu pra tomar ar. Na janela, enquanto olhava o mar de Copa, tão bonito à noite, encontrou sua resposta. E entendeu que as mais belas paisagens só são vistas sobre duas rodas.

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2 Comments to “Infinitas estradas”

  1. Lucinha Reis disse:

    Caracaaa!! Adorei o artigo… mto show, isso q é viver… PARABÉNS!!

  2. Carlos disse:

    Incrível! quem ama pedalar entende perfeitamente!

Escreve aí, vai...